Eu tentei. Juro que tentei ser o cara que “aproveita a festa”.
Mas não sou de Carnaval. Nunca fui. Tenho uma dificuldade enorme com essa “alegria por decreto”.

Aquela felicidade forçada de 4 dias, como se fosse proibido ser triste em fevereiro e proibido ser feliz numa terça-feira comum de agosto.

Mas decidi baixar a guarda. “Vou assistir às escolas de samba”, pensei. “É arte, afinal”. Liguei a TV na primeira escola e entendi o tamanho do buraco em que estamos.

Não vou falar de política.
Quem me acompanha sabe que não trago esse assunto para cá. Não gosto.
Até porque o problema que vi é anterior à política. É moral. É ético.

O que eu vi não foi uma escola de samba. Foi a alienação desfilando em carro alegórico.

Vi o que deveria ser proibido sendo celebrado.
Vi a lei sendo ignorada em horário nobre.

Mas o que assusta não é o desfile. O que assusta é o aplauso.

É perceber que chegamos num ponto de anestesia tão grande que, se o absurdo tiver bateria e ritmo, a gente canta junto. A gente não questiona. A gente samba.

A alienação é confortável, eu sei.
Mas ela cobra caro.

Por isso, prefiro a quarta-feira de cinzas.
É quando a fantasia cai e a gente volta para a realidade.
E é bom que a quarta-feira chegue logo.

Afinal, a única saída é criar a nossa própria política, a nossa própria economia e o nosso próprio caminho.

O resto é distração.
E quem tem o poder adora te ver distraído.

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